Essa história aconteceu em 1971. Minha mãe tinha apenas 8 anos.
Como de costume, durante as férias escolares minha mãe passava alguns dias na casa de seus avós maternos, vó Dai e vô David, que moravam em um sítio em Jaraguá do Sul.
Minha mãe adorava passar as férias lá, não apenas porque amava seus avós, mas também porque amava brincar com as galinhas que eles criavam.
Quando chegou o fim das férias, uma das galinhas de seus avós havia chocado vários pintinhos e então presentearam minha mãe com uma “pinta”.
Bem, aí começa a história da minha mãe e sua galinha de estimação, que iremos chamar de Joaquina, para preservar a identidade dela.
Minha mãe ganhou Joaquina com apenas um dia de vida…
A primeira coisa que fez ao chegar de volta à casa de seus pais em Joinville, foi arranjar um espaço confortável para Joaquina dormir.
As duas viraram inseparáveis. Eram extremamente grudadas. Onde minha mãe ia, a Joaquina ia atrás…
Minha mãe a chamava, e ela vinha igual cachorrinho.
Joaquina esperava minha mãe voltar da escola todas as manhãs no portão.
O tempo passou, e Joaquina deixou de ser apenas uma pequena “pinta”, e virou uma linda e grande galinha vermelha, super fofa e cheia de penas… Ela já não cabia mais nas mãos da minha mãe, mas nem por isso deixou de viver no colo dela.
Veja bem, minha mãe morava em uma rua, onde todos eram parentes (todos irmãos do meu avô Titi). Por ser uma rua familiar, todos sabiam da vida de todo mundo, ou seja, todos sabiam que a Soninha (minha mãe) tinha uma galinha de estimação e ficavam um tanto admirados com tamanha ligação entre as duas.
Pois bem, um dia minha mãe voltou da escola, e estranhou pois Joaquina não estava no portão esperando como sempre fazia.
Correu pra dentro de casa, e começou a chamar pela galinha:
– “Joaquina! Jojoooooo !!!!” Gritava minha mãe.
E nada.
Perguntou aos irmãos e os dois disseram que não a viram.
Quando ela foi no quintal, Joaquina estava em cima de um balanço, toda amuada e com a cabecinha baixa.
Minha mãe foi se aproximando e quando chegou bem perto, não acreditou ao ver que ela estava rasgada, a asa direita de Joaquina estava por um fio, ou melhor, por uma pena…
O que aconteceu foi que os irmãos da minha mãe estavam brigando para decidir quem ia brincar com a galinha, a briga acabou esquentando e foi aí que começaram a puxar a Joaquina, cada um puxou de um lado, e rasgaram a asa da coitada.
Voltando à história, minha mãe pegou a Joaquina no colo e saiu carregando aos gritos:
– “MÃE!!! MÃE!! AJUDA!!! A Joaquina vai morrer!!!!” Berrava minha mãe.
Minha avó Téia assustada foi correndo ver o que havia acontecido.
Minha mãe aos prantos segurando com todo o cuidado a galinha no colo …
– “Faz uma “cirurgia” nela mãe, por favor” Implorava à minha avó com os olhos cheios de lágrimas.
Pra você entender melhor toda a situação, meus avós eram super simples e pobres, daquelas famílias que vendiam o almoço pra comprar a janta sabe? Minha avó naquela época com 3 filhos pequenos, uma casa inteira para cuidar e também preparava as comidas que meu avô vendia no bar, enfim, tempo de sobra era tudo o que ela não tinha.
Mas mesmo com tanta coisa pra fazer, minha vó olha pra minha mãe desesperada, e com toda a paciência do mundo, vai em busca da linha e da agulha e com muito cuidado coloca a Joaquina no colo e inicia a “cirurgia”.
Aquela tensão na sala, minha avó costurando, os três filhos olhando, e Joaquina não movia uma pena. Estavam todos, sem exceção confiando na minha vó.
Bem, quase uma hora se passou e a cirurgia foi um sucesso.
Gritaria por todos os lados, os filhos aplaudindo a vó Téia. Minha mãe não se contia de tanta felicidade… O choro acabou, a vida era boa de novo. Jojo estava viva, tudo deu certo, graças a sua mãe.
Óbvio que a galinha estava muito sensível após tudo isso, então foi uma recuperação longa, na qual todos tomavam cuidado ao brincar com ela para não machucá-la.
Após alguns meses ela já estava novinha de novo, alegre como antes, indo de um lado para o outro, e claro, sempre seguindo minha mãe.
Naquela época, era bem comum os alunos terem aulas aos sábados de manhã.
Então num Sábado qualquer, voltando da escola, minha mãe notou que Joaquina não estava no portão.
Na mesma hora minha mãe começa a correr pela rua chamando:
– “Joaquina!!! Jojooooo!!!!”
Corre na casa de todos os tios… Bate na casa do tio Jango e nada, ninguém a viu. Bate na tia Lídia, e não está lá, nada na tia Lila, nem na tia Nena e nem na tia Rosinha…
Ninguém viu Joaquina.
A mãe não desiste, volta pra casa e vai direto no balanço e nada da galinha… Entra em casa, pergunta para os irmãos, pra mãe, pro pai e ninguém, absolutamente ninguém viu a galinha Joaquina.
Minha mãe como nunca foi de sossegar até achar respostas, começou a ser insistente com todos da casa e chorar mais alto. Foi aí que levou uma surra e acabou dormindo de tanto chorar.
No outro dia, no Domingo de manhã pra ser mais exata; minha mãe acorda num pulo e resolve ir de novo na rua perguntar para os tios do paradeiro da bendita. Passa a manhã toda procurando na vizinhança.
Quando chega perto do meio dia, ela desiste e volta pra casa.
O cheiro do almoço da vó Téia invadia a rua inteira.
Minha vó chama todos para almoçar e quando todos sentam na mesa , meu avô pergunta:
– “O que temos hoje?”
– “Macarronada com galinha ensopada.” Diz minha vó.
Todos param. Se olham.
Minha mãe ao perceber o que havia acontecido, chora com toda a tristeza que vocês possam imaginar. Se levanta da mesa e diz que não irá almoçar.
Acabou completamente o clima de almoço de Domingo na casa da família Ferreira e todos perderam o apetite.
Até porque, nem se eles quisessem seria possível comer com uma menina de 8 anos chorando descontrolavelmente o luto de sua galinha de estimação.
Meu avô cancela o almoço e decide enterrar a galinha já ensopada no quintal de casa.
A casa toda se reúne no pequeno velório de Joaquina.
Naquele Domingo não houve apenas um minuto de silêncio, mas sim um dia inteiro.