Há pouco tempo meu pai e eu trocamos mensagens e ele me disse que se pegou pensativo, se questionando se sua vida havia passado despercebida…
Resolvi escrever esse texto para mostrar a ele que nenhum detalhe passou sem ser notado.
Pai, foi você que nos ensinou a nadar e a andar de bicicleta.
Comprava bola, pandorga, bolinhas de gude, taco de madeira, porque acreditava que a melhor diversão era brincar ao ar livre.
Em época de copa do mundo, era ele que enfeitava a casa e nos ensinava a torcer.
Por mais ou menos um ano, meu pai nos buscava no fim do dia na casa de um casal de idosos que cuidava de nós. Dava exatamente 5 minutos de carro da casa deles até a nossa, e quase todos os dias voltávamos escutando Twist and Shout do Beatles (o que era perfeito, porque dava certinho pra escutar a música duas vezes). Lembro de gritarmos na hora do refrão como se soubéssemos falar inglês :
“Twist and shout, twist and shout… Come on, come on, come, come on, baby, now”
Foi meu pai que nos apresentou Beatles, Queen, ABBA, Guns N’ roses, Raul Seixas, Os Serranos, Tonico e Tinoco (uma pena caso a linha musical dele não faça muito sentido pra você).
Meu pai foi em todos os eventos da escola, inclusive foi em um de dia das mães porque minha mãe não pode ir. Quando o vi chorei muito, não sei se era porque ela não foi ou porque fiquei emocionada que ele veio no lugar dela. Acho que foi uma mistura dos dois.
Eu com certeza puxei meu pai em relação à datas especiais… o Natal por exemplo, ele começava os preparativos da ceia já no dia anterior. Decorávamos juntos à casa antes do início de Dezembro e no dia 6 de janeiro desmontávamos juntos também.
Às vezes ele enchia o pinheiro de algodão para imitar neve… Lembro de achar aquilo tudo tão legal. Lembro nitidamente de achar que nada no mundo era mais incrível que a tradição natalina. Por muito tempo achei que era o clima de Natal, mas hoje percebo que era apenas o fato de estarmos juntos, nos divertindo em família.
Meu pai era considerado o cara “chato” que havia comprado uma filmadora VHS e gravava todos os momentos especiais. Na época ninguém queria ser filmado ou achava bobo, mas hoje é relíquia e todo mundo quer reviver esses momentos.
Um dia meu pai me disse que seu filme preferido era Matilda (e por muito tempo foi meu filme preferido também, só porque eu queria que tivéssemos mais uma coisa em comum).
Eu amava a risada do meu pai quando assistíamos Chaves juntos, principalmente nas cenas do Seu Madruga (que era o personagem que ele mais gostava).
Em um acidente no jardim de infância quando eu tinha 5 anos, perdi as unhas de uma mão e era ele que estava comigo no hospital.
Meu pai nos deu um buggy quando eu tinha uns 10 anos e pra nossa segurança podíamos apenas andar na nossa rua porque não era uma rua movimentada. Ele fazia a gente deixar todas as crianças da rua brincar também, e talvez foi uma das coisas que mais uniu os vizinhos naquela época.
Meu pai conseguia deixar uma simples terça-feira especial, fazendo a noite dos pastéis pra jantarmos em família.
Foi ele que nos ensinou sobre plantar, adubar, colher, e graças a ele tive o privilégio de viver a melhor infância que uma criança pudesse querer, em uma casa com vários pés de frutas, galinhas, coelhos, cabras, cachorros etc
Foi com meu pai que aprendi a cozinhar e é por causa dele que carrego tantas receitas, inclusive a do melhor bolinho de carne do mundo, pato recheado marinado na laranja entre outras…
Meu pai é um dos caras mais engraçados, autênticos e contadores de histórias que conheço…
Ele sempre teve um olhar aos detalhes, de ver beleza no que pra maioria das pessoas virou cotidiano e de acreditar que a vida é feita de simples momentos e sobre com QUEM estamos nesses momentos.
Carrego milhares de histórias contigo, pai! Mas mais importante que as histórias que vivemos juntos, são as muitas histórias que ainda iremos viver.
Feliz dia dos pais, meu pai! Te amo muito.
Beijos da sua contadora de história. Porque a fruta não cai longe do pé.