Essa história aconteceu mais ou menos em 1997/98. Eu tinha uns 6 anos e meu irmão uns 4 ou 5.
Eu lembro de estar escondida e ouvir meus pais discutirem por falta de dinheiro.
Como foi uma das primeiras discussões que presenciei deles, me chamou atenção. E mesmo no outro dia, aquilo ficou martelando na minha cabeça; resolvi então fazer algo pra ajudar.
Fui no armário de sapatos que tínhamos e puxei uns três all star de diferentes tamanhos. Super decidida cheguei para o meu irmão:
– O pai e a mãe estão precisando de dinheiro. Vai lá na rua e vende esses tênis, dez reais cada.
Veja bem, não era dez reais o par, era dez reais CADA. Afinal, é super comum você perder um pé e querer comprar outro, né?
Meu irmão, assim como eu também era uma criança decidida, então sem ao menos pensar, me respondeu:
– Eu não! Vai tu!
Meus amigos, o que acontece daqui pra frente nessa história, eu não me orgulho ok?
Eu discuto com ele e teimo “Tu vai sim”
Ele começa a chorar e responde de volta “Por que não vai tu?”
Eu, com a maior cara de pau que os meus 6 anos de vida puderam me dar: “Porque eu já tive a ideia”
“Eu tenho vergonha Bi, vai tu por favor” diz ele com os olhos cheios de lágrimas e uma das mãos fazendo carinho no outro braço depois dos tapas que eu dei.
Ficamos nessa por uns quinze minutos. Eu mandando, ele chorando, eu bato e ele foge.
A história aconteceu mais ou menos assim e nem se eu quisesse meu irmão deixaria eu esquecer… Essa história é contada e revivida todas as vezes que nos reunimos com a família toda, ou um novo integrante entra na família, ou nos churrascos que os amigos deles vão lá em casa.
Não dá pra culpá-lo né? Afinal quem apanha nunca esquece.
Fico aliviada de ser eu a pessoa contando essa história por aqui, porque na versão dele, ele apanha muito mais.
Pois bem, essa semana nos ligamos por vídeo (sem percebermos que era o dia do irmão). Um contando um causo aqui, outro lá… Falando sobre carreira, finanças e sobre não termos vergonha de começar de novo, de trabalhar de graça para aprender ou vender pipoca para ajudar um amigo.
Então ele me diz: “Só pra tu saber, se fosse hoje eu venderia tênis contigo.”
Ele me pegou de surpresa, nem tive a chance de responder de volta… Mas deixo aqui, pra ele nunca esquecer, não há no mundo irmão melhor que ele.
Te amo mano.
Ps: Se nada der certo, abrimos nosso negócio “Calçados 2 irmãos”