Feliz ano velho!

Esse ano foi um dos melhores anos da minha vida, se não o melhor.

Estamos praticamente com um pé em 2024 e me peguei pensando no porquê de 2023 ter sido tão maravilhoso. O que eu fiz de diferente?

E uma coisa que certamente mudei em mim foi largar o controle (controladores entenderão). Escolhi me abrir para os eventos da vida e tirar lições de todas as situações e pessoas que passassem por mim, sendo elas “boas” ou “ruins”.

Combinei comigo que seria um ano no qual o foco fosse 100% eu (um pouco egoísta, alguns diriam)… um ano no qual eu “só” cuidaria do meu corpo e da minha mente, sem pensar em carreira, relacionamentos, novas ambições, viagens etc

Eu apenas viveria a vida sem planejar muito e abraçaria o que a vida me proporcionasse.

Pois bem, foi o ano que mais aprendi sobre trabalho mesmo não focando em carreira, o ano que mais me diverti genuinamente com os meus “poucos e bons”, um ano de realizações mas principalmente de muito aprendizado.

Compartilho com quem interessar as minhas preciosas lições de 2023, obviamente com ajuda de muitas sessões de análise também (porque aqui meus amigos, ninguém solta a mão de ninguém, principalmente a mão da analista).

  • Alguns desejos são insustentáveis
  • Tomar uma decisão sem olhar pra trás pode ser mais difícil do que a própria decisão
  • Que é uma perda de tempo e energia fazer de tudo pra alguém gostar de ti
  • Regar demais também mata
  • A maioria dos adultos são crianças feridas
  • Maturidade é uma escolha e não algo que vem com a idade
  • A inveja é um sentimento que não mente
  • A maior mentira contada é que não precisamos de ninguém
  • É muito difícil dar algo que não se teve, mas não é impossível
  • As pessoas que dizem saber tudo são apenas seres que decidiram não aprender nada nessa vida
  • Uma pessoa que te ama inteiramente vale mais que um milhão que só te “amam” quando você é bom
  • Que não há nada mais corajoso que pedir ajuda
  • Não fazer questão de agradar é libertador
  • Que estamos adoecendo porque acreditamos que a grama do vizinho é sempre mais verde
  • Que muito da nossa tristeza é porque nos comparamos e achamos que a vida é uma corrida com linha de chegada
  • Ter fé é uma escolha e com ela a vida fica um pouco menos pesada
  • Nem tudo o que queremos deve ser vivido
  • Um abraço apertado, um banho quente e uma amizade recíproca curam muita coisa
  • Autocuidado também é fazer o que não queremos fazer
  • Que muito da nossa angústia é porque fazemos aquilo que achamos que o outro espera de nós e não o que de fato queremos
  • Também é a primeira vez dos nossos pais na Terra
  • Não existe vinho no mundo que preencha um vazio interno
  • Que é aliviante perceber a nossa insignificância
  • Entre 8 e 80 existem 72 possibilidades
  • Gentileza, sorriso largo e mal humor contagiam 
  • Que é muito triste ser a mesma pessoa a vida inteira
  • As repetições têm muito a nos dizer
  • Melhor que a chegada, o caminho. Melhor que o caminho, a companhia (nem que seja a nossa própria)

Para muitos talvez pareça uma lista gigante de clichês… mas o que é a vida senão um enorme clichê?

Termino aqui com o coração cheio de gratidão por 2023 e que em 2024 eu esteja aberta para as oportunidades da vida sem esquecer de continuar cuidando de mim, até porque se tem outra pequena-grande lição que aprendi é: quando cuidamos da gente consequentemente cuidamos um pouco dos outros também.

Paz e saúde para todos!

Quem você chamaria pra vender tênis com você?

Essa história aconteceu mais ou menos em 1997/98. Eu tinha uns 6 anos e meu irmão uns 4 ou 5.

Eu lembro de estar escondida e ouvir meus pais discutirem por falta de dinheiro.

Como foi uma das primeiras discussões que presenciei deles, me chamou atenção. E mesmo no outro dia, aquilo ficou martelando na minha cabeça; resolvi então fazer algo pra ajudar.

Fui no armário de sapatos que tínhamos e puxei uns três all star de diferentes tamanhos. Super decidida cheguei para o meu irmão:

– O pai e a mãe estão precisando de dinheiro. Vai lá na rua e vende esses tênis, dez reais cada.

Veja bem, não era dez reais o par, era dez reais CADA. Afinal, é super comum você perder um pé e querer comprar outro, né?

Meu irmão, assim como eu também era uma criança decidida, então sem ao menos pensar, me respondeu:

– Eu não! Vai tu!

Meus amigos, o que acontece daqui pra frente nessa história, eu não me orgulho ok?

Eu discuto com ele e teimo “Tu vai sim
Ele começa a chorar e responde de volta “Por que não vai tu?
Eu, com a maior cara de pau que os meus 6 anos de vida puderam me dar: “Porque eu já tive a ideia

Eu tenho vergonha Bi, vai tu por favor” diz ele com os olhos cheios de lágrimas e uma das mãos fazendo carinho no outro braço depois dos tapas que eu dei.

Ficamos nessa por uns quinze minutos. Eu mandando, ele chorando, eu bato e ele foge.

A história aconteceu mais ou menos assim e nem se eu quisesse meu irmão deixaria eu esquecer… Essa história é contada e revivida todas as vezes que nos reunimos com a família toda, ou um novo integrante entra na família, ou nos churrascos que os amigos deles vão lá em casa.

Não dá pra culpá-lo né? Afinal quem apanha nunca esquece.

Fico aliviada de ser eu a pessoa contando essa história por aqui, porque na versão dele, ele apanha muito mais.

Pois bem, essa semana nos ligamos por vídeo (sem percebermos que era o dia do irmão). Um contando um causo aqui, outro lá… Falando sobre carreira, finanças e sobre não termos vergonha de começar de novo, de trabalhar de graça para aprender ou vender pipoca para ajudar um amigo.

Então ele me diz: “Só pra tu saber, se fosse hoje eu venderia tênis contigo.

Ele me pegou de surpresa, nem tive a chance de responder de volta… Mas deixo aqui, pra ele nunca esquecer, não há no mundo irmão melhor que ele.

Te amo mano.

Ps: Se nada der certo, abrimos nosso negócio “Calçados 2 irmãos”

A vida nada despercebida com meu pai.

Há pouco tempo meu pai e eu trocamos mensagens e ele me disse que se pegou pensativo, se questionando se sua vida havia passado despercebida… 

Resolvi escrever esse texto para mostrar a ele que nenhum detalhe passou sem ser notado.

Pai, foi você que nos ensinou a nadar e a andar de bicicleta. 

Comprava bola, pandorga, bolinhas de gude, taco de madeira, porque acreditava que a melhor diversão era brincar ao ar livre.

Em época de copa do mundo, era ele que enfeitava a casa e nos ensinava a torcer.

Por mais ou menos um ano, meu pai nos buscava no fim do dia na casa de um casal de idosos que cuidava de nós. Dava exatamente 5 minutos de carro da casa deles até a nossa, e quase todos os dias voltávamos escutando Twist and Shout do Beatles (o que era perfeito, porque dava certinho pra escutar a música duas vezes). Lembro de gritarmos na hora do refrão como se soubéssemos falar inglês :

“Twist and shout, twist and shout… Come on, come on, come, come on, baby, now” 

Foi meu pai que nos apresentou Beatles, Queen, ABBA, Guns N’ roses, Raul Seixas, Os Serranos, Tonico e Tinoco (uma pena caso a linha musical dele não faça muito sentido pra você).

Meu pai foi em todos os eventos da escola, inclusive foi em um de dia das mães porque minha mãe não pode ir. Quando o vi chorei muito, não sei se era porque ela não foi ou porque fiquei emocionada que ele veio no lugar dela. Acho que foi uma mistura dos dois.

Eu com certeza puxei meu pai em relação à datas especiais… o Natal por exemplo, ele começava os preparativos da ceia já no dia anterior. Decorávamos juntos à casa antes do início de Dezembro e no dia 6 de janeiro desmontávamos juntos também. 

Às vezes ele enchia o pinheiro de algodão para imitar neve… Lembro de achar aquilo tudo tão legal. Lembro nitidamente de achar que nada no mundo era mais incrível que a tradição natalina. Por muito tempo achei que era o clima de Natal, mas hoje percebo que era apenas o fato de estarmos juntos, nos divertindo em família.

Meu pai era considerado o cara “chato” que havia comprado uma filmadora VHS e gravava todos os momentos especiais. Na época ninguém queria ser filmado ou achava bobo, mas hoje é relíquia e todo mundo quer reviver esses momentos. 

Um dia meu pai me disse que seu filme preferido era Matilda (e por muito tempo foi meu filme preferido também, só porque eu queria que tivéssemos mais uma coisa em comum).

Eu amava a risada do meu pai quando assistíamos Chaves juntos, principalmente nas cenas do Seu Madruga (que era o personagem que ele mais gostava).

Em um acidente no jardim de infância quando eu tinha 5 anos, perdi as unhas de uma mão e era ele que estava comigo no hospital.

Meu pai nos deu um buggy quando eu tinha uns 10 anos e pra nossa segurança podíamos apenas andar na nossa rua porque não era uma rua movimentada. Ele fazia a gente deixar todas as crianças da rua brincar também, e talvez foi uma das coisas que mais uniu os vizinhos naquela época.

Meu pai conseguia deixar uma simples terça-feira especial, fazendo a noite dos pastéis pra jantarmos em família.

Foi ele que nos ensinou sobre plantar, adubar, colher, e graças a ele tive o privilégio de viver a melhor infância que uma criança pudesse querer, em uma casa com vários pés de frutas, galinhas, coelhos, cabras, cachorros etc

Foi com meu pai que aprendi a cozinhar e é por causa dele que carrego tantas receitas, inclusive a do melhor bolinho de carne do mundo, pato recheado marinado na laranja entre outras…

Meu pai é um dos caras mais engraçados, autênticos e contadores de histórias que conheço… 

Ele sempre teve um olhar aos detalhes, de ver beleza no que pra maioria das pessoas virou cotidiano e de acreditar que a vida é feita de simples momentos e sobre com QUEM estamos nesses momentos.

Carrego milhares de histórias contigo, pai! Mas mais importante que as histórias que vivemos juntos,  são as muitas histórias que ainda iremos viver.

Feliz dia dos pais, meu pai! Te amo muito.

Beijos da sua contadora de história. Porque a fruta não cai longe do pé.

Essa é uma história de amor…

Essa é uma história de amor. Dizem que o primeiro amor, a gente nunca esquece. Posso dizer que o primeiro amor correspondido, menos ainda. 

Iremos preservar todas as identidades possíveis aqui.

O ano é 2004 e eu havia acabado de fazer 12 anos.

Tudo começou com uma ideia das escolas do estado de Santa Catarina, que queriam incentivar os alunos a escrever, e acreditavam que seria uma experiência interessante se os estudantes trocassem cartas, estilo moda antiga.

Professores ficaram encarregados de escolher com qual cidade do mesmo estado trocaríamos cartas. 

Professora Elaine de Português da sexta série A na época,  auxiliou todos os alunos da minha turma com ideias do que poderíamos escrever para quem fosse ler nossas cartinhas. A única coisa que sabíamos era que seriam alunos da mesma faixa etária, da cidade de Chapecó.

A carta que eu escrevi era mais ou menos assim:

Oi! Meu nome é Bibi. Tenho 12 anos. Faço aniversário no dia 4 de maio, e você?

Nasci em Joinville e sempre morei aqui. Você já veio pra cá? É uma cidade muito bonita, com certeza você já deve ter ouvido falar da festa das flores ou do festival de dança.

Estou na sexta série e estudo de manhã.

Minha mãe disse que estudar de manhã é muito mais produtivo, eu não sei se é verdade, mas acho que sim, a única coisa ruim é ter que acordar cedo.

A professora Elaine disse que seria legal falarmos da nossa família.

Meus pais estão se separando, então não sei muito o que falar. Eu tenho um irmão que é quase 2 anos mais novo que eu. 

Minha matéria preferida é Português, gosto de jogar handebol nas aulas de educação física e amo cozinhar.

Quando eu crescer, quero ser atriz. Mesmo com todo mundo tentando me convencer que não é uma boa ideia. E você, já sabe o que quer ser?

É mais difícil do que eu imaginei, escrever sem saber quem irá receber.

Estou ansiosa pra receber sua carta.

Beijos, Bibi

2 meses se passaram e a professora Elaine entrou na sala de aula com vários envelopes, todos com nome do remetente e do destinatário. 

Ela sentada de frente para turma, chamava um por um para ir pegar o envelope.

Levantei correndo pra pegar o meu e vejo que está escrito “De: Gustavo Schmidt Para: Bibi Ferreira”

Abri tão depressa, que até rasguei a carta. Mas é que eu nunca havia escrito carta pra ninguém na vida. E muito menos recebido alguma. Ainda mais uma carta de tão longe, afinal 500km é muita coisa.

Querida Bibi,

Fiquei muito feliz em ler sua carta. Como você deve ter visto no envelope, me chamo Gustavo. E acabo de fazer 12 anos no dia 24 de julho. 

Claro que conheço Joinville, mas conheci quando era muito novo, não lembro muito bem. 

Mas quem sabe visito novamente. Você me levaria para conhecer os pontos turísticos da cidade?

Sinto pelo seus pais, mas acho que é melhor assim, do que viver brigando assim como os meus.

Minha matéria preferida é Biologia. Eu amo natação e poderia viver tranquilamente dentro d’água. Até já ganhei várias competições pela escola.

Se eu não for nadador profissional, serei médico.

Bibi, não dê bola se os outros não te apoiam. Você será quem você quiser ser.

Eu estou curioso pra saber mais sobre você. Meu email é blablabla@blabla.com.br

Espero que nossa conversa não acabe nessa carta.

Beijos, Gustavo

E foi aí que começou nossas trocas de mensagens à distância. Primeiro conversávamos por email, depois msn, orkut e logo trocamos nossos números de telefone. E aí foi um caminho sem volta. Trocávamos mensagens o dia inteiro. A primeira mensagem do dia era dele e a última também…

Não demorou muito para que ele me pedisse em namoro (sim, à distância), e eu aceitei (só entenderia quem já foi um adolescente bobo apaixonado, uma pena caso você não saiba o que é isso)

E eu estava perdidamente apaixonada. 

Conversávamos sobre tudo. Podíamos ser nós mesmos um com o outro. 

No que aos 12 anos falávamos de estudos, irmãos e brigas de família… aos 14 falávamos dos nossos desejos mais profundos, do futuro, viagens, férias e de um sonhado primeiro beijo. 

Gustavo era o menino mais inteligente que eu havia conhecido até então. Ele sabia o que queria desde muito cedo. Sempre estudou muito, e não tinha medo de ser ele mesmo ou de brigar pelo o que ele acreditava, tanto que ele já havia me relatado ser um dos motivos de tantas brigas com seu pai. Gustavo não aceitava que ninguém mudasse os seus planos.

Ele era engraçado de um jeito sarcástico, autoconfiante e tinha assunto pra absolutamente tudo. Se eu escrevesse algo errado por mensagem, ele me corrigia na mesma hora. E eu amava aquilo, amava o fato que não precisávamos pisar em ovos um com o outro.

Nas férias de verão tínhamos mais tempo de sobra ainda, e não sei se era o clima de verão no ar ou as festas de fim de ano, que aí sim nos perdíamos ainda mais em meio há tantos torpedos, que nunca acabavam.

Eu saía desesperada em busca de uma farmácia aberta às onze horas da noite para comprar um pacote de um milhão de torpedos TIM.

Conseguíamos ficar horas no telefone, nunca nos faltou assunto e eu amava escutar sua voz. Amava seu sotaque chapecoense. E no verão, os telefonemas sempre acabavam em sussurros pois a casa da praia dos meus avós ficava lotada, com a família inteira dormindo empoleirada… Enquanto do outro lado da linha alguém me prometia que nos encontraríamos logo, me dizia como ficava quando pensava em mim, e que não iria deixar de me beijar nem por um segundo quando nos encontrássemos.

Foi num desses telefonemas longos que ele disse que me amava, assim por acidente ou não. Da forma mais espontânea, ele admitiu que era louco por mim. E eu também por ele, mas isso era óbvio, não existia ninguém próximo de mim que não percebia minha cara de boba suspirante. Estava perdidamente apaixonada por um garoto que nunca vi pessoalmente. 

O verão de 2007 estava quase chegando ao fim quando recebi uma mensagem dele, dizendo que no final de semana seguinte o tio dele iria pra Joinville visitar alguns familiares distantes, e que ele convenceu o tio a levá-lo junto porque queria me conhecer, finalmente.

Eu li aquela mensagem e não pude acreditar, estava dividida entre uma vontade infinita de conhecer o cara que eu chamava de namorado, o cara que eu desejava abraçar com todas as forças e nunca mais soltá-lo. E ao mesmo tempo super insegura, me perguntando constantemente se ele me acharia bonita.

Como qualquer adolescente, eu tinha várias inseguranças que variavam entre peso, altura, espinha, cabelo etc

Mas as inseguranças com o meu corpo me tiravam o sono, provocando uma ansiedade completamente fora do normal. Eu me achava gorda, feia e também era mais do que claro que eu não pertencia a nenhum padrão de beleza imposto pela sociedade.

Não sabia o que responder ao Gustavo, aquilo tudo começou a gerar um desconforto imenso dentro de mim, porque eu o queria, mas tinha medo que ele não fosse me querer, e a rejeição para uma adolescente de quase 15 anos estava entre as piores coisas que poderia acontecer no mundo. 

Aceitei o encontro no Sábado, porque aparentemente meu amor por ele era maior que o medo da rejeição, mas decidi ficar sem comer até o dia do encontro, no máximo comia uma maçã, e se sentisse muita fome comia duas. Uma decisão completamente irracional e incabível. Mas tudo porque eu queria que ele me achasse a menina mais linda do mundo.

Passou os 5 dias. Chegou o tão sonhado Sábado, o dia do nosso encontro, que foi marcado no shopping menos movimentado de Joinville. Marcamos cedo,  porque a ideia era passarmos o dia todo juntos. Um verão de 40 graus e eu vestindo meia calça, com vestido preto manga longa porque eu tinha que disfarçar qualquer curva fora do lugar. 

Eu cheguei 15 minutos antes, sou ansiosa desde o dia que me colocaram nesse mundo. Eu andava de um lado para o outro, as mãos suavam. Fui ao banheiro umas três vezes para checar se estava tudo certo, ajeitava o vestido, encolhia a barriga, ajeitava o cabelo…

Eu estava completamente tonta de fome. Coloquei uma bala de canela na boca, rezei uma ave maria e fui ao ponto de encontro.

Ele estava de costas, não o via mas caminhava ao encontro dele. Eu tremia, queria desistir. Naquele momento, ele se virou. 

E meu Deus. O mundo parou naquele instante. Ele era mil vezes mais bonito do que por foto. Meu coração nunca bateu tão forte. Nem se eu quisesse conseguiria disfarçar as pernas bambas e as bochechas rosadas. Ele veio até mim com o sorriso mais lindo que os meus quase 15 anos já havia visto na vida, e me deu aquele beijo de final de novela, me abraçou com toda força, olhou nos meus olhos e disse “Você é linda!”

Bem, dois adolescentes teoricamente namorados, que nunca se viram, com todos os hormônios em ebulição.

Resolvemos passar o dia dentro das salas de cinema. Sim, era o que podíamos ter de mais privado… 

Entre conversas, risadas, beijos, uma mão aqui outra ali, aquela paixão descontrolada; alguém grita: “SILÊNCIO”, era “SHHHHHH” para todos os lados. Mas não estávamos nem aí, era como se ninguém existisse naquela sala de cinema. Só nós.

No terceiro filme (zero lembrança dos filmes, por sinal)  já estávamos tão caras de pau que fomos expulsos. Mas estava tudo bem, porque já era tarde. E tínhamos que ir pra casa. O tio dele logo viria buscá-lo e minha mãe também.

Eu estava num estado de felicidade indescritível. Era a primeira vez que eu amava alguém que me amava de volta. Nos despedimos com um beijo e ele disse que me mandaria mensagem para programarmos o Domingo.

Mal havia chego em casa e já havia uma mensagem do Gustavo dizendo que o tio queria ir cedo para a praia no outro dia, e que seu tio fazia questão que eu fosse  junto com eles, porque toda família estaria lá pra aproveitar o domingo de despedida; já que na Segunda feira bem cedo eles partiriam de volta à Chapecó.

Gustavo mostrava muita ansiedade na mensagem, contando que não via a hora de ver o mar e que eu e ele passaríamos o dia dentro d’água.

Eu lembro como se fosse hoje do nervosismo que senti com aquela mensagem “Como que eu vou ficar de biquíni perto dele?” “Ele não pode me ver de biquíni”.

Eu não sabia o que dizer pra ele, e quanto mais pensava na situação, mais nervosa ficava.

Gustavo me mandou mensagens com vários pontos de interrogação esperando que eu respondesse o convite, disse que ligaria para minha mãe pra dizer que eu estaria na responsabilidade do tio, e que seria apenas uma despedida. Disse também que minha mãe não teria com o que se preocupar e que era o momento perfeito para contarmos do nosso namoro, e que a distância não seria um problema, porque nos amávamos e poderíamos revezar, ele me visitaria em Joinville e eu o visitaria em Chapecó.

E era tudo o que eu mais queria, ser a namorada do Gustavo Schmidt. Mas eu não conseguia aceitar o convite da praia e nem dizer o porquê, era muita humilhação na minha cabeça. Eu não podia falar para o garoto que eu amava, que eu tinha vergonha do meu corpo. Que eu não iria colocar um biquíni e nem passaria a tarde com ele nadando (e nadar era uma das coisas que ele mais amava fazer na vida)

Eu passei a noite chorando sem saber o que fazer. Não consegui pedir conselhos à ninguém. Ninguém me entenderia. A única solução era acordar magra no Domingo. Mas isso era impossível.

No outro dia de manhã ele me ligou várias vezes, não atendi nenhuma delas. 

A última mensagem dele foi “Bibi! Por que você não me responde? Por favor! Eu preciso te ver! Eu não quero voltar pra Chapecó sem me despedir de ti. Eu te amo“

Bem, essa história não tem final, pelo menos não o final Disney que você talvez tenha imaginado. Não fui para à praia no Domingo, não ficamos juntos, nunca fui pra Chapecó, tampouco vi Gustavo novamente.

O verdadeiro  final dessa história, se posso chamar de final, é que quase 15 anos se passaram, e tudo o que eu mais queria é que aquela menina de apenas 14 anos se visse como a vejo hoje.

Queria tanto que ela soubesse que cada corpo é único, que todos os corpos são lindos e que cada corpo carrega uma história que merece ser respeitada. Que não há nada mais belo do que amar a si próprio, e aceitar que somos todos diferentes e a beleza está justamente nisso, nas nossas diferenças.  

Dentre todos que já amei, nada se compara ao amor que senti quando eu pude finalmente me amar…

E como eu falei lá no começo desse texto, “Essa é uma história de amor…” História de um amor por mim mesma, que fui sentir apenas 13 anos depois.

Nossos corpos mudam diariamente. 

Contemplemos o corpo que temos hoje, exatamente do jeito que ele é. Jamais o teremos de volta, porque tudo passa… Não tenho mais meu corpo de 15 anos, e o corpo que tenho hoje, já não o terei amanhã. Que possamos viver sem ter vergonha da única coisa que nos carregará por toda vida.

Gustavo, se aos 14 anos eu me amasse como me amo hoje, teria te respondido:

“Que horas você passa aqui?”

A galinha Joaquina

Essa história aconteceu em 1971. Minha mãe tinha apenas 8 anos.

Como de costume, durante as férias escolares minha mãe passava alguns dias na casa de seus avós maternos, vó Dai e vô David, que moravam em um sítio em Jaraguá do Sul.

Minha mãe adorava passar as férias lá, não apenas porque amava seus avós, mas também porque amava brincar com as galinhas que eles criavam.

Quando chegou o fim das férias, uma das galinhas de seus avós havia chocado vários pintinhos e então presentearam minha mãe com uma “pinta”.

Bem, aí começa a história da minha mãe e sua galinha de estimação, que iremos chamar de Joaquina, para preservar a identidade dela.

Minha mãe ganhou Joaquina com apenas um dia de vida… 

A primeira coisa que fez ao chegar de volta à casa de seus pais em Joinville, foi arranjar um espaço confortável para Joaquina dormir.

As duas viraram inseparáveis. Eram extremamente grudadas. Onde minha mãe ia, a Joaquina ia atrás…

Minha mãe a chamava, e ela vinha igual cachorrinho.

Joaquina esperava minha mãe voltar da escola todas as manhãs no portão.

O tempo passou, e Joaquina deixou de ser apenas uma pequena “pinta”, e virou uma linda e grande galinha vermelha, super fofa e cheia de penas… Ela já não cabia mais nas mãos da minha mãe, mas nem por isso deixou de viver no colo dela.

Veja bem, minha mãe morava em uma rua, onde todos eram parentes (todos irmãos do meu avô Titi). Por ser uma rua familiar, todos sabiam da vida de todo mundo, ou seja, todos sabiam que a Soninha (minha mãe) tinha uma galinha de estimação e ficavam um tanto admirados com tamanha ligação entre as duas.

Pois bem, um dia minha mãe voltou da escola, e estranhou pois Joaquina não estava no portão esperando como sempre fazia.

Correu pra dentro de casa, e começou a chamar pela galinha:

– “Joaquina! Jojoooooo !!!!” Gritava minha mãe.

E nada.

Perguntou aos irmãos e os dois disseram que não a viram.

Quando ela foi no quintal, Joaquina estava em cima de um balanço, toda amuada e com a cabecinha baixa.

Minha mãe foi se aproximando e quando chegou bem perto, não acreditou ao ver que ela estava rasgada, a asa direita de Joaquina estava por um fio, ou melhor, por uma pena…

O que aconteceu foi que os irmãos da minha mãe estavam brigando para decidir quem ia brincar com a galinha, a briga acabou esquentando e foi aí que começaram a puxar a Joaquina, cada um puxou de um lado, e rasgaram a asa da coitada.

Voltando à história, minha mãe pegou a Joaquina no colo e saiu carregando aos gritos:

– “MÃE!!! MÃE!! AJUDA!!! A Joaquina vai morrer!!!!” Berrava minha mãe.

Minha avó Téia assustada foi correndo ver o que havia acontecido.

Minha mãe aos prantos segurando com todo o cuidado a galinha no colo …

– “Faz uma “cirurgia” nela mãe, por favor” Implorava à minha avó com os olhos cheios de lágrimas.

Pra você entender melhor toda a situação, meus avós eram super simples e pobres, daquelas famílias que vendiam o almoço pra comprar a janta sabe? Minha avó naquela época com 3 filhos pequenos, uma casa inteira para cuidar e também preparava as comidas que meu avô vendia no bar, enfim, tempo de sobra era tudo o que ela não tinha.

Mas mesmo com tanta coisa pra fazer, minha vó olha pra minha mãe desesperada, e com toda a paciência do mundo, vai em busca da linha e da agulha e com muito cuidado coloca a Joaquina no colo e inicia a “cirurgia”.

Aquela tensão na sala, minha avó costurando, os três filhos olhando, e Joaquina não movia uma pena. Estavam todos, sem exceção confiando na minha vó.

Bem, quase uma hora se passou e a cirurgia foi um sucesso.

Gritaria por todos os lados, os filhos aplaudindo a vó Téia. Minha mãe não se contia de tanta felicidade… O choro acabou, a vida era boa de novo. Jojo estava viva, tudo deu certo, graças a sua mãe.

Óbvio que a galinha estava muito sensível após tudo isso, então foi uma recuperação longa, na qual todos tomavam cuidado ao brincar com ela para não machucá-la.

Após alguns meses ela já estava novinha de novo, alegre como antes, indo de um lado para o outro, e claro, sempre seguindo minha mãe.

Naquela época, era bem comum os alunos terem aulas aos sábados de manhã. 

Então num Sábado qualquer, voltando da escola, minha mãe notou que Joaquina não estava no portão. 

Na mesma hora minha mãe começa a correr pela rua chamando:

– “Joaquina!!! Jojooooo!!!!”

Corre na casa de todos os tios… Bate na casa do tio Jango e nada, ninguém a viu. Bate na tia Lídia, e não está lá, nada na tia Lila, nem na tia Nena e nem na tia Rosinha… 

Ninguém viu Joaquina.

A mãe não desiste, volta pra casa e vai direto no balanço e nada da galinha… Entra em casa, pergunta para os irmãos, pra mãe, pro pai e ninguém, absolutamente ninguém viu a galinha Joaquina.

Minha mãe como nunca foi de sossegar até achar respostas, começou a ser insistente com todos da casa e chorar mais alto. Foi aí que levou uma surra e acabou dormindo de tanto chorar.

No outro dia, no Domingo de manhã pra ser mais exata; minha mãe acorda num pulo e  resolve ir de novo na rua perguntar para os tios do paradeiro da bendita. Passa a manhã toda procurando na vizinhança. 

Quando chega perto do meio dia, ela desiste e volta pra casa.

O cheiro do almoço da vó Téia invadia a rua inteira.

Minha vó chama todos para almoçar e quando todos sentam na mesa , meu avô pergunta:

– “O que temos hoje?”
– “Macarronada com galinha ensopada.” Diz minha vó.

Todos param. Se olham.  

Minha mãe ao perceber o que havia acontecido, chora com toda a tristeza que vocês possam imaginar. Se levanta da mesa e diz que não irá almoçar.

Acabou completamente o clima de almoço de Domingo na casa da família Ferreira e todos perderam o apetite.

Até porque, nem se eles quisessem seria possível comer com uma menina de 8 anos chorando descontrolavelmente o luto de sua galinha de estimação.

Meu avô cancela o almoço e decide enterrar a galinha já ensopada no quintal de casa.

A casa toda se reúne no pequeno velório de Joaquina.

Naquele Domingo não houve apenas um minuto de silêncio, mas sim um dia inteiro.

O dia que eu fingi um desmaio

Desde muito cedo tive que aprender a lidar com rejeição… E posso dizer que acabei me tornando muito boa nisso… tanto que por muito tempo adotei a ideia de que rejeição é afrodisíaco. 

Eu sempre fui gordinha, então de cara tive que conviver com apelidos que iam de gorda à baleia assassina (sim, as crianças podem ser muito más, mas isso não é novidade pra ninguém).

Bem, eu era muito tímida, então demorei para fazer amigos (a minha primeira amiga de verdade foi quando eu tinha 10 anos, e isso foi na quarta série. Foi ali que senti pela primeira vez que fazia parte de um grupo, no caso, uma dupla).

E essa dificuldade de fazer amigos preocupava demais à minha mãe; então quando eu tinha uns 6 ou 7 anos comecei a ir em uma psicóloga. E eu simplesmente AMAVA as sessões de terapia (bem, não sabia que eram sessões de terapia, achava que era dia de brincar com uma amiga).

Eu era tão tímida, que quando eu estava na primeira série, no meio do recreio eu fui correndo pra chamar alguém (não lembro quem e nem por que fui chamar), foi aí que esbarrei em uma menina da quarta série, e como nos chocamos e ela era maior do que eu, na mesma hora eu caí no chão… a timidez era tanta, que achei que fingir que eu havia desmaiado era menos pior que me esborrachar no chão na frente de todo mundo… sim, exatamente isso que você leu… não me pergunte o que passou na minha cabeça… ou pergunte e eu te respondo “eu fiquei com vergonha”.

Na minha cabeça de 6 anos, era mil vezes pior cair e levantar na frente de todos do que fingir um desmaio…

Enfim, todo mundo parou pra olhar. Todos estavam em volta de mim! Chamaram o diretor, supervisora, professores… E eu escutando tudo o que estavam falando.

– “Meu Deus quem é essa menina?’”
– “Nunca vi” Alguém falou.
– “Por favor menina, levanta!!! Menina!!!” Gritava a menina que esbarrou em mim quase chorando.
– “Ela é da primeira série” Disse um dos meninos da minha sala, sem falar o meu nome.
– “Será que ela morreu?” Alguém perguntou. E a menina que esbarrou em mim chora mais ainda.
– “Vou ligar pra ambulância” Disse o diretor da escola.

E bem nesse momento, o sinal tocou anunciando o final do recreio.

Quando o sinal anuncia o fim do recreio, todas as classes (da primeira à quarta série nesse caso) deveriam formar filas por turma e voltar às salas de aula.

Mas comigo esticada no chão, não foi o que aconteceu. 

Então eu, decidi levantar e ir direto para a fila (imaginária) porque todos ainda estavam parados olhando para o chão que estara vazio enquanto eu estava sozinha na fila olhando para eles como se nada tivesse acontecido.

Até hoje não sei explicar porque fiz aquilo. Eu sei que não fiz intencionalmente, não planejei fingir um desmaio quando acordei naquele dia ao ir à escola.

Claro que fui advertida pelo que fiz, e claro que se eu já era sozinha, depois dessa fiquei ainda mais… Naquele dia não pude participar da aula de educação física e nem da aula de computação (que todo mundo sabe que são as aulas mais divertidas).

Eu tinha que pensar no que eu fiz. 

E eu pensei, pensei muito, o dia todo, e até minha mãe chegar do trabalho eu já havia tomado uma decisão.

Depois do jantar cheguei pra ela e falei:

– “Mãe, resolvi que não quero mais ir pra escola”.
– “Como assim, por que ?” Com voz curiosa sem entender.
– “Eu percebi que estudar não é pra mim, então acho melhor eu não ir mais”.
– “Ok, tudo bem… você não precisa ir mais, mas posso saber o que aconteceu?”.

Foi aí que eu contei tudo pra minha mãe. Minha mãe não é de ferro, então ela riu. Não descaradamente, mas com aquela risada leve e já com tudo planejado com o que ia me falar .

– “Ahhh mas só por isso? Mas isso é simples de resolver. Diz que você estava ensaiando para uma peça”. Disse ela convicta que isso resolveria todos os meus problemas. 
– “Uma peça?” Questionei.
– “Sim! Diga que você está há dias ensaiando para uma peça, e que fingiu que desmaiou porque fazia parte da peça…”.

Talvez pra você que esteja lendo isso, pense que talvez minha mãe seja louca.

Bem, aos 6 anos de idade, não só achei a ideia da minha mãe genial, como adotei o plano, e foi o que eu fiz no outro dia quando fui à escola pela manhã.

Algumas pessoas chegaram para mim, sem ainda saberem meu nome.

– “Ei menina! Porque tu fez aquilo ontem?”.
– “Desculpe, aquilo o que?” Disse eu, muito cínica.
– “Fingiu que desmaiou”.
– “Eu não fingi, eu estava apenas ensaiando para uma peça… é o que atores fazem…” Falei enquanto andava sem dar margem para mais perguntas.