O dia que eu fingi um desmaio

Desde muito cedo tive que aprender a lidar com rejeição… E posso dizer que acabei me tornando muito boa nisso… tanto que por muito tempo adotei a ideia de que rejeição é afrodisíaco. 

Eu sempre fui gordinha, então de cara tive que conviver com apelidos que iam de gorda à baleia assassina (sim, as crianças podem ser muito más, mas isso não é novidade pra ninguém).

Bem, eu era muito tímida, então demorei para fazer amigos (a minha primeira amiga de verdade foi quando eu tinha 10 anos, e isso foi na quarta série. Foi ali que senti pela primeira vez que fazia parte de um grupo, no caso, uma dupla).

E essa dificuldade de fazer amigos preocupava demais à minha mãe; então quando eu tinha uns 6 ou 7 anos comecei a ir em uma psicóloga. E eu simplesmente AMAVA as sessões de terapia (bem, não sabia que eram sessões de terapia, achava que era dia de brincar com uma amiga).

Eu era tão tímida, que quando eu estava na primeira série, no meio do recreio eu fui correndo pra chamar alguém (não lembro quem e nem por que fui chamar), foi aí que esbarrei em uma menina da quarta série, e como nos chocamos e ela era maior do que eu, na mesma hora eu caí no chão… a timidez era tanta, que achei que fingir que eu havia desmaiado era menos pior que me esborrachar no chão na frente de todo mundo… sim, exatamente isso que você leu… não me pergunte o que passou na minha cabeça… ou pergunte e eu te respondo “eu fiquei com vergonha”.

Na minha cabeça de 6 anos, era mil vezes pior cair e levantar na frente de todos do que fingir um desmaio…

Enfim, todo mundo parou pra olhar. Todos estavam em volta de mim! Chamaram o diretor, supervisora, professores… E eu escutando tudo o que estavam falando.

– “Meu Deus quem é essa menina?’”
– “Nunca vi” Alguém falou.
– “Por favor menina, levanta!!! Menina!!!” Gritava a menina que esbarrou em mim quase chorando.
– “Ela é da primeira série” Disse um dos meninos da minha sala, sem falar o meu nome.
– “Será que ela morreu?” Alguém perguntou. E a menina que esbarrou em mim chora mais ainda.
– “Vou ligar pra ambulância” Disse o diretor da escola.

E bem nesse momento, o sinal tocou anunciando o final do recreio.

Quando o sinal anuncia o fim do recreio, todas as classes (da primeira à quarta série nesse caso) deveriam formar filas por turma e voltar às salas de aula.

Mas comigo esticada no chão, não foi o que aconteceu. 

Então eu, decidi levantar e ir direto para a fila (imaginária) porque todos ainda estavam parados olhando para o chão que estara vazio enquanto eu estava sozinha na fila olhando para eles como se nada tivesse acontecido.

Até hoje não sei explicar porque fiz aquilo. Eu sei que não fiz intencionalmente, não planejei fingir um desmaio quando acordei naquele dia ao ir à escola.

Claro que fui advertida pelo que fiz, e claro que se eu já era sozinha, depois dessa fiquei ainda mais… Naquele dia não pude participar da aula de educação física e nem da aula de computação (que todo mundo sabe que são as aulas mais divertidas).

Eu tinha que pensar no que eu fiz. 

E eu pensei, pensei muito, o dia todo, e até minha mãe chegar do trabalho eu já havia tomado uma decisão.

Depois do jantar cheguei pra ela e falei:

– “Mãe, resolvi que não quero mais ir pra escola”.
– “Como assim, por que ?” Com voz curiosa sem entender.
– “Eu percebi que estudar não é pra mim, então acho melhor eu não ir mais”.
– “Ok, tudo bem… você não precisa ir mais, mas posso saber o que aconteceu?”.

Foi aí que eu contei tudo pra minha mãe. Minha mãe não é de ferro, então ela riu. Não descaradamente, mas com aquela risada leve e já com tudo planejado com o que ia me falar .

– “Ahhh mas só por isso? Mas isso é simples de resolver. Diz que você estava ensaiando para uma peça”. Disse ela convicta que isso resolveria todos os meus problemas. 
– “Uma peça?” Questionei.
– “Sim! Diga que você está há dias ensaiando para uma peça, e que fingiu que desmaiou porque fazia parte da peça…”.

Talvez pra você que esteja lendo isso, pense que talvez minha mãe seja louca.

Bem, aos 6 anos de idade, não só achei a ideia da minha mãe genial, como adotei o plano, e foi o que eu fiz no outro dia quando fui à escola pela manhã.

Algumas pessoas chegaram para mim, sem ainda saberem meu nome.

– “Ei menina! Porque tu fez aquilo ontem?”.
– “Desculpe, aquilo o que?” Disse eu, muito cínica.
– “Fingiu que desmaiou”.
– “Eu não fingi, eu estava apenas ensaiando para uma peça… é o que atores fazem…” Falei enquanto andava sem dar margem para mais perguntas.

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