Essa é uma história de amor. Dizem que o primeiro amor, a gente nunca esquece. Posso dizer que o primeiro amor correspondido, menos ainda.
Iremos preservar todas as identidades possíveis aqui.
O ano é 2004 e eu havia acabado de fazer 12 anos.
Tudo começou com uma ideia das escolas do estado de Santa Catarina, que queriam incentivar os alunos a escrever, e acreditavam que seria uma experiência interessante se os estudantes trocassem cartas, estilo moda antiga.
Professores ficaram encarregados de escolher com qual cidade do mesmo estado trocaríamos cartas.
Professora Elaine de Português da sexta série A na época, auxiliou todos os alunos da minha turma com ideias do que poderíamos escrever para quem fosse ler nossas cartinhas. A única coisa que sabíamos era que seriam alunos da mesma faixa etária, da cidade de Chapecó.
A carta que eu escrevi era mais ou menos assim:
Oi! Meu nome é Bibi. Tenho 12 anos. Faço aniversário no dia 4 de maio, e você?
Nasci em Joinville e sempre morei aqui. Você já veio pra cá? É uma cidade muito bonita, com certeza você já deve ter ouvido falar da festa das flores ou do festival de dança.
Estou na sexta série e estudo de manhã.
Minha mãe disse que estudar de manhã é muito mais produtivo, eu não sei se é verdade, mas acho que sim, a única coisa ruim é ter que acordar cedo.
A professora Elaine disse que seria legal falarmos da nossa família.
Meus pais estão se separando, então não sei muito o que falar. Eu tenho um irmão que é quase 2 anos mais novo que eu.
Minha matéria preferida é Português, gosto de jogar handebol nas aulas de educação física e amo cozinhar.
Quando eu crescer, quero ser atriz. Mesmo com todo mundo tentando me convencer que não é uma boa ideia. E você, já sabe o que quer ser?
É mais difícil do que eu imaginei, escrever sem saber quem irá receber.
Estou ansiosa pra receber sua carta.
Beijos, Bibi
2 meses se passaram e a professora Elaine entrou na sala de aula com vários envelopes, todos com nome do remetente e do destinatário.
Ela sentada de frente para turma, chamava um por um para ir pegar o envelope.
Levantei correndo pra pegar o meu e vejo que está escrito “De: Gustavo Schmidt Para: Bibi Ferreira”
Abri tão depressa, que até rasguei a carta. Mas é que eu nunca havia escrito carta pra ninguém na vida. E muito menos recebido alguma. Ainda mais uma carta de tão longe, afinal 500km é muita coisa.
Querida Bibi,
Fiquei muito feliz em ler sua carta. Como você deve ter visto no envelope, me chamo Gustavo. E acabo de fazer 12 anos no dia 24 de julho.
Claro que conheço Joinville, mas conheci quando era muito novo, não lembro muito bem.
Mas quem sabe visito novamente. Você me levaria para conhecer os pontos turísticos da cidade?
Sinto pelo seus pais, mas acho que é melhor assim, do que viver brigando assim como os meus.
Minha matéria preferida é Biologia. Eu amo natação e poderia viver tranquilamente dentro d’água. Até já ganhei várias competições pela escola.
Se eu não for nadador profissional, serei médico.
Bibi, não dê bola se os outros não te apoiam. Você será quem você quiser ser.
Eu estou curioso pra saber mais sobre você. Meu email é blablabla@blabla.com.br
Espero que nossa conversa não acabe nessa carta.
Beijos, Gustavo
E foi aí que começou nossas trocas de mensagens à distância. Primeiro conversávamos por email, depois msn, orkut e logo trocamos nossos números de telefone. E aí foi um caminho sem volta. Trocávamos mensagens o dia inteiro. A primeira mensagem do dia era dele e a última também…
Não demorou muito para que ele me pedisse em namoro (sim, à distância), e eu aceitei (só entenderia quem já foi um adolescente bobo apaixonado, uma pena caso você não saiba o que é isso)
E eu estava perdidamente apaixonada.
Conversávamos sobre tudo. Podíamos ser nós mesmos um com o outro.
No que aos 12 anos falávamos de estudos, irmãos e brigas de família… aos 14 falávamos dos nossos desejos mais profundos, do futuro, viagens, férias e de um sonhado primeiro beijo.
Gustavo era o menino mais inteligente que eu havia conhecido até então. Ele sabia o que queria desde muito cedo. Sempre estudou muito, e não tinha medo de ser ele mesmo ou de brigar pelo o que ele acreditava, tanto que ele já havia me relatado ser um dos motivos de tantas brigas com seu pai. Gustavo não aceitava que ninguém mudasse os seus planos.
Ele era engraçado de um jeito sarcástico, autoconfiante e tinha assunto pra absolutamente tudo. Se eu escrevesse algo errado por mensagem, ele me corrigia na mesma hora. E eu amava aquilo, amava o fato que não precisávamos pisar em ovos um com o outro.
Nas férias de verão tínhamos mais tempo de sobra ainda, e não sei se era o clima de verão no ar ou as festas de fim de ano, que aí sim nos perdíamos ainda mais em meio há tantos torpedos, que nunca acabavam.
Eu saía desesperada em busca de uma farmácia aberta às onze horas da noite para comprar um pacote de um milhão de torpedos TIM.
Conseguíamos ficar horas no telefone, nunca nos faltou assunto e eu amava escutar sua voz. Amava seu sotaque chapecoense. E no verão, os telefonemas sempre acabavam em sussurros pois a casa da praia dos meus avós ficava lotada, com a família inteira dormindo empoleirada… Enquanto do outro lado da linha alguém me prometia que nos encontraríamos logo, me dizia como ficava quando pensava em mim, e que não iria deixar de me beijar nem por um segundo quando nos encontrássemos.
Foi num desses telefonemas longos que ele disse que me amava, assim por acidente ou não. Da forma mais espontânea, ele admitiu que era louco por mim. E eu também por ele, mas isso era óbvio, não existia ninguém próximo de mim que não percebia minha cara de boba suspirante. Estava perdidamente apaixonada por um garoto que nunca vi pessoalmente.
O verão de 2007 estava quase chegando ao fim quando recebi uma mensagem dele, dizendo que no final de semana seguinte o tio dele iria pra Joinville visitar alguns familiares distantes, e que ele convenceu o tio a levá-lo junto porque queria me conhecer, finalmente.
Eu li aquela mensagem e não pude acreditar, estava dividida entre uma vontade infinita de conhecer o cara que eu chamava de namorado, o cara que eu desejava abraçar com todas as forças e nunca mais soltá-lo. E ao mesmo tempo super insegura, me perguntando constantemente se ele me acharia bonita.
Como qualquer adolescente, eu tinha várias inseguranças que variavam entre peso, altura, espinha, cabelo etc
Mas as inseguranças com o meu corpo me tiravam o sono, provocando uma ansiedade completamente fora do normal. Eu me achava gorda, feia e também era mais do que claro que eu não pertencia a nenhum padrão de beleza imposto pela sociedade.
Não sabia o que responder ao Gustavo, aquilo tudo começou a gerar um desconforto imenso dentro de mim, porque eu o queria, mas tinha medo que ele não fosse me querer, e a rejeição para uma adolescente de quase 15 anos estava entre as piores coisas que poderia acontecer no mundo.
Aceitei o encontro no Sábado, porque aparentemente meu amor por ele era maior que o medo da rejeição, mas decidi ficar sem comer até o dia do encontro, no máximo comia uma maçã, e se sentisse muita fome comia duas. Uma decisão completamente irracional e incabível. Mas tudo porque eu queria que ele me achasse a menina mais linda do mundo.
Passou os 5 dias. Chegou o tão sonhado Sábado, o dia do nosso encontro, que foi marcado no shopping menos movimentado de Joinville. Marcamos cedo, porque a ideia era passarmos o dia todo juntos. Um verão de 40 graus e eu vestindo meia calça, com vestido preto manga longa porque eu tinha que disfarçar qualquer curva fora do lugar.
Eu cheguei 15 minutos antes, sou ansiosa desde o dia que me colocaram nesse mundo. Eu andava de um lado para o outro, as mãos suavam. Fui ao banheiro umas três vezes para checar se estava tudo certo, ajeitava o vestido, encolhia a barriga, ajeitava o cabelo…
Eu estava completamente tonta de fome. Coloquei uma bala de canela na boca, rezei uma ave maria e fui ao ponto de encontro.
Ele estava de costas, não o via mas caminhava ao encontro dele. Eu tremia, queria desistir. Naquele momento, ele se virou.
E meu Deus. O mundo parou naquele instante. Ele era mil vezes mais bonito do que por foto. Meu coração nunca bateu tão forte. Nem se eu quisesse conseguiria disfarçar as pernas bambas e as bochechas rosadas. Ele veio até mim com o sorriso mais lindo que os meus quase 15 anos já havia visto na vida, e me deu aquele beijo de final de novela, me abraçou com toda força, olhou nos meus olhos e disse “Você é linda!”
Bem, dois adolescentes teoricamente namorados, que nunca se viram, com todos os hormônios em ebulição.
Resolvemos passar o dia dentro das salas de cinema. Sim, era o que podíamos ter de mais privado…
Entre conversas, risadas, beijos, uma mão aqui outra ali, aquela paixão descontrolada; alguém grita: “SILÊNCIO”, era “SHHHHHH” para todos os lados. Mas não estávamos nem aí, era como se ninguém existisse naquela sala de cinema. Só nós.
No terceiro filme (zero lembrança dos filmes, por sinal) já estávamos tão caras de pau que fomos expulsos. Mas estava tudo bem, porque já era tarde. E tínhamos que ir pra casa. O tio dele logo viria buscá-lo e minha mãe também.
Eu estava num estado de felicidade indescritível. Era a primeira vez que eu amava alguém que me amava de volta. Nos despedimos com um beijo e ele disse que me mandaria mensagem para programarmos o Domingo.
Mal havia chego em casa e já havia uma mensagem do Gustavo dizendo que o tio queria ir cedo para a praia no outro dia, e que seu tio fazia questão que eu fosse junto com eles, porque toda família estaria lá pra aproveitar o domingo de despedida; já que na Segunda feira bem cedo eles partiriam de volta à Chapecó.
Gustavo mostrava muita ansiedade na mensagem, contando que não via a hora de ver o mar e que eu e ele passaríamos o dia dentro d’água.
Eu lembro como se fosse hoje do nervosismo que senti com aquela mensagem “Como que eu vou ficar de biquíni perto dele?” “Ele não pode me ver de biquíni”.
Eu não sabia o que dizer pra ele, e quanto mais pensava na situação, mais nervosa ficava.
Gustavo me mandou mensagens com vários pontos de interrogação esperando que eu respondesse o convite, disse que ligaria para minha mãe pra dizer que eu estaria na responsabilidade do tio, e que seria apenas uma despedida. Disse também que minha mãe não teria com o que se preocupar e que era o momento perfeito para contarmos do nosso namoro, e que a distância não seria um problema, porque nos amávamos e poderíamos revezar, ele me visitaria em Joinville e eu o visitaria em Chapecó.
E era tudo o que eu mais queria, ser a namorada do Gustavo Schmidt. Mas eu não conseguia aceitar o convite da praia e nem dizer o porquê, era muita humilhação na minha cabeça. Eu não podia falar para o garoto que eu amava, que eu tinha vergonha do meu corpo. Que eu não iria colocar um biquíni e nem passaria a tarde com ele nadando (e nadar era uma das coisas que ele mais amava fazer na vida)
Eu passei a noite chorando sem saber o que fazer. Não consegui pedir conselhos à ninguém. Ninguém me entenderia. A única solução era acordar magra no Domingo. Mas isso era impossível.
No outro dia de manhã ele me ligou várias vezes, não atendi nenhuma delas.
A última mensagem dele foi “Bibi! Por que você não me responde? Por favor! Eu preciso te ver! Eu não quero voltar pra Chapecó sem me despedir de ti. Eu te amo“
Bem, essa história não tem final, pelo menos não o final Disney que você talvez tenha imaginado. Não fui para à praia no Domingo, não ficamos juntos, nunca fui pra Chapecó, tampouco vi Gustavo novamente.
O verdadeiro final dessa história, se posso chamar de final, é que quase 15 anos se passaram, e tudo o que eu mais queria é que aquela menina de apenas 14 anos se visse como a vejo hoje.
Queria tanto que ela soubesse que cada corpo é único, que todos os corpos são lindos e que cada corpo carrega uma história que merece ser respeitada. Que não há nada mais belo do que amar a si próprio, e aceitar que somos todos diferentes e a beleza está justamente nisso, nas nossas diferenças.
Dentre todos que já amei, nada se compara ao amor que senti quando eu pude finalmente me amar…
E como eu falei lá no começo desse texto, “Essa é uma história de amor…” História de um amor por mim mesma, que fui sentir apenas 13 anos depois.
Nossos corpos mudam diariamente.
Contemplemos o corpo que temos hoje, exatamente do jeito que ele é. Jamais o teremos de volta, porque tudo passa… Não tenho mais meu corpo de 15 anos, e o corpo que tenho hoje, já não o terei amanhã. Que possamos viver sem ter vergonha da única coisa que nos carregará por toda vida.
Gustavo, se aos 14 anos eu me amasse como me amo hoje, teria te respondido:
“Que horas você passa aqui?”
Que história linda, fiquei muito curiosa.. A tua história é também a de muitas de nós aos 13 anos…
😉
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Meu coração ficou apertado e meus olhos cheios de lágrimas. O melhor tipo de amor é o amor próprio. Somos todos únicos. Obrigada por compartilhar.
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